Pesquisa confirma que Paraná não possui leitos nem respiradores suficientes para crise de Covid-19

por guaranoticias

Atualizado às 09h51

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) fizeram um análise baseada em projeções matemáticas realizadas pela Imperial College London em várias regiões do Estado que indica que o número de leitos disponíveis no Paraná será inferior à demanda durante a pandemia do Covid-19. O estudo serve como um alerta e chama a atenção para a importância da restrição de circulação de pessoas, já que mesmo no melhor cenário simulado a estrutura de saúde do Paraná não seria suficiente para atender toda a demanda se essa quantia de pessoas adoecesse em um curto espaço de tempo. Além disso, os leitos e respiradores em questão não são destinados apenas a pacientes internados pela Covid-19, outros quadros de saúde complicados também requerem tratamento intensivo, o que diminui ainda mais a soma total.

Com 29 municípios, a 2ª regional, que abarca Curitiba e região metropolitana, tem a maior população do estado do Paraná. Tendo como parâmetro os mesmos 10% de contaminados, 365.496 seriam acometidos, dos quais 18.274 casos graves iriam requerer tratamento intensivo com respiradores. A região dispõe de apenas 981 leitos de UTI e 1.625 respiradores.

No Litoral – Aproximadamente 30 mil pessoas serão infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o litoral do estado do Paraná. Destas, 19%, o correspondente a 5.643, precisarão de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ventiladores mecânicos. Formado por sete municípios, o litoral dispõe de apenas 21 leitos de UTI, situados em Paranaguá, que devem atender toda a região.  O estudo feito pelo Programa Educação pelo Trabalho em Saúde (PET-Saúde Litoral) partiu do princípio de que 10% da população litorânea seria infectada, observando um cenário real em que não existe uma supressão generalizada da circulação de pessoas. A análise britânica para o Brasil, que fundamentou a investigação, aponta cinco cenários diferentes, de acordo com as medidas adotadas pelo país. No pior deles, sem nenhuma mitigação na circulação de pessoas, 88% da população brasileira seria contaminada.

Os outros panoramas comparam o distanciamento social em diferentes níveis. Com distanciamento social de toda a população, 57% seria infectada (cenário 2). Havendo distanciamento social e reforço do isolamento dos idosos, 55% seria contaminada (cenário 3). Com a supressão tardia da circulação de pessoas, 23% se infectariam (cenário 4), enquanto que a supressão precoce da circulação resultaria em apenas 5% de contaminados (cenário 5).

A metodologia adotada para o litoral do Paraná foi um meio termo entre os cenários de supressão tardia e supressão precoce. “Essa escolha otimista, de 10%, nos descolou do cenário 3, o chamado isolamento vertical que vem sendo defendido pelo presidente da república. Porém, não nos localizamos exatamente no cenário 4, nem no 5, pois se sairmos às ruas, observamos que a população ainda resiste às medidas mais restritivas de isolamento, embora haja importante redução de circulação em espaços públicos”, explica o professor de Saúde Coletiva da UFPR e coordenador do PET-Saúde, Marcos Signorelli.

Cabe ressaltar que o estudo foi realizado há cerca de duas semanas. Recentemente tem se obervado uma tendência de afrouxamento das medidas restritivas, com reabertura de comércios e menor aderência da população ao distanciamento social. Nesse casso, o cenário 3, em que 55% da população poderia ser acometida, está ficando cada vez mais próximo, o que indica piora na proporção da demanda por leitos e dos leitos disponíveis.

Tendo como base a quantidade populacional informada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10% de infectados no litoral paranaense corresponderia a 29.704 pessoas, das quais 5.643 precisariam de leitos de UTI, pois seriam casos mais graves. A região é formada por sete municípios: Paranaguá, Guaratuba, Antonina, Matinhos, Guaraqueçaba, Morretes e Pontal do Paraná. Destes, apenas o primeiro conta com leitos de UTI, são os 21 pertencentes ao Hospital Regional do Litoral e que devem atender toda a microrregião.

Carla Straub, professora de Saúde Coletiva e integrante do PET, esclarece que o Sistema único de Saúde (SUS) é organizado em regiões. “Se pensarmos na lógica do sistema, a menor unidade é a região. A maioria dos municípios da região litorânea é de baixo e médio porte e não compota a estrutura necessária para abrigar uma UTI, que exige equipamentos, equipes treinadas, entre outros aspectos. A distribuição dos leitos segue a lógica da economia de escala, por isso Paranaguá, como maior cidade do litoral, concentra a chamada atenção especializada, que inclui os leitos de UTI”. O cuidado intensivo é bastante específico e requer uma estrutura física e de equipe técnica adequada como médicos intensivistas, médicos infectologistas, enfermeiros especializados, bioquímicos para realização de certos exames, entre outros.

“Essas estimativas são importantes para compreendermos a nossa capacidade instalada. A capacidade do SUS é condizente com um padrão de doenças e agravos habituais. Mesmo assim, há estudos que indicam uma baixa proporção de leitos para habitantes quando comparado a outros países. Além disso, temos uma desproporção entre leitos públicos e privados”, afirma a professora. Para o estudo, foram contabilizados os leitos públicos e privados existentes no litoral do estado.

“Chegamos à conclusão de que os leitos de UTI no litoral paranaense são distribuídos de uma maneira muito desigual. Se uma pessoa de Guaratuba, por exemplo, tem uma complicação, seja pela Covid-19 ou o por outro problema, precisa se deslocar até Paranaguá para ser atendida, o que é impraticável em um caso de vida ou morte. No caso específico da Covid-19, estima-se que muitas pessoas precisarão de suporte de terapia intensiva e essa relação entre população e leitos de UTI não dá conta, mesmo no melhor cenário”, afirma Signorelli.

Até a tarde deste domingo (12), havia oito casos confirmados de Covid-19 no litoral, sendo dois em Matinhos e seis em Paranaguá, dos quais dois resultaram em óbito.

Telêmaco Borba – O grupo também fez a projeção para outras regiões do Paraná, tendo sempre como base as regionais de saúde. A 21ª regional, de Telêmaco Borba, compreende sete municípios e conta com 12 leitos de UTI e 14 respiradores. Se 10% da população regional fosse infectada, 18.845 pessoas, 942 leitos seriam necessários (5% da população total).

Ponta Grossa – A 3ª regional, de Ponta Grossa, por sua vez, compreende 12 municípios e tem à sua disposição 136 leitos de UTI e 179 respiradores. Caso 63.729 pessoas, apenas 10% da população dessa região, se contaminassem com o coronavírus, 3.186 leitos seriam necessários

Ivaiporã – Na 22ª regional, Ivaiporã, estão disponíveis 49 leitos de UTI e apenas 30 respiradores. A microrregião compreende 16 municípios e teria 12.864 contaminados, sendo que 643 seriam casos graves. Já a região de Irati, 4ª regional, atende nove cidades e possui 23 leitos de UTI e 41 respiradores. Caso o cenário de 10% da população atingida se replicasse ali, 17.493 indivíduos seriam infectados, sendo que 874 careceriam de tratamento intensivo.

SUS

Para Carla, o objetivo do estudo é claro: demonstrar a importância do isolamento para o achatamento da curva e para ganhar tempo. “Tanto para a busca de tratamento e de vacinas, como para uma resposta do sistema de saúde com adaptações que estão em curso como a abertura de novos leitos, a ampliação de recursos físicos e humanos e também para ter uma capacidade instalada adequada à demanda”.

“Há uma assimetria regional muito intensa no Brasil, com concentração de leitos de UTI em algumas regiões, como a sudeste. Mesmo dentro do Paraná há essa assimetria. Por isso, esse contexto deve encaminhar a criação de uma central única de regulação de leitos, a exemplo da Espanha. Semana passada já foi criado um cadastro único para os profissionais de saúde”, aponta a professora.

Para ela, a solução estaria não em abrir leitos de UTI em todas as cidades, mas em criar mecanismos que se adaptem à lógica de um sistema de saúde que atende a uma região. Transporte rápido de urgência e emergência, mais helicópteros à disposição e UTI móveis seriam algumas opções.

O subfinanciamento que o SUS tem enfrentado também tem papel importante nessa crise. “A lógica de oferta e demanda do sistema tem sido orientada, nos últimos anos, pelos recursos financeiros. A oferta dos serviços não necessariamente seguiu o mesmo fluxo das necessidades da população que cresceu, ficou mais complexa e passou a apresentar nova carga de doenças e agravos”, aponta a integrante do PET – Saúde. “Um sistema como o SUS precisa de financiamento adequado porque está lidando com vidas humanas e saúde é um direito de cidadania no Brasil”.

O PET

Financiado pelo Ministério da Saúde, o PET – Saúde e Interprofissionalidade no SUS tem a proposta de integrar, em um trabalho multidisciplinar, as áreas da atenção básica de saúde no SUS como psicologia, fisioterapia, medicina, fonoaudiologia e nutrição. O programa é composto por docentes e estudantes dos cursos de Saúde Coletiva, Serviço Social e Educação Física.

 

(Foto: Bem Paraná Arquivo)

Comentários